Amor

Eu desisti firmemente do amor.

E agora eu o quero mais do que nunca.

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Palavras

Um problema da sociedade atual é entender. Tudo precisa ser explicado, detalhado, não se pode haver segundas (nem outras interpretações). Mundo globalizado, informações globalizadas, interpretações globalizadas. Sempre odiei interpretação de texto. Sempre achei um crime ter de ver as coisas de forma igual a e para todos. Ninguém vai entender um texto da forma ‘certa’ simplesmente porque não existe forma certa, a partir do momento que ele sai de dentro de alguém ele vira de outrem, no caso, do outrem que o leu e o lerá. Pois ninguém entende o que um outro diz pelo fato de que só se entende o que se quer entender, o que se apresenta como entendível. As palavras que você fala tem aqueles exatos significados apenas para você, pois no momento em que eles se poem pra fora não são mais seus, se um dia o foram. Todos se preocupam demais em serem entendidos, compreendidos, sendo que esse sonho é tão impossível quanto o impossível. Ele não existe. O que existe numa conversa é o desentendimento, é desinformação que faz a comunicação. Aquela velha frase feita: “ninguém me entende” é tão tola quanto narcisisticamente delusional, e está no ‘hall das frases tolas’ juntamente com o velho hino egocêntrico do: “seja você mesmo”. Como se você existisse sozinho… você só existe no momento em que te criam, os outros te criam, te moldam. Você existe antes de nascer, e depois de morrer e creio que o momento que você menos existe é quando você se percebe existindo. Quando você nasce começa a ser menos você e passa a ser os outros. Ninguém ‘é’, de fato, todo mundo ‘está’. Creio que quando as pessoas aceitarem isso, talvez se decepcionem e reclamem menos dos outros.
Essas palavras deixaram de ser minhas no momento em que elas existiram.

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“Minha voz inaugura os sussurros”

Gosto do jeito que você muda as coisas, as cores, os jeitos, os cabelos, eu gosto.

Eu? Eu continuo não mudando, procurando quem me mude, que me alude, que me faça mudar. Não que tenha algo errado em mim, nem certo, mas as coisas mudam quando andam, e eu preciso de passos. Largos e compridos como os dos atletas, porém pequenos e delicado como os das gueixas.

Mas então, ela me diz: “você tem que parar de pensar!” Oh meu Deus! Como é dificil o exercício do não-pensamento, pois quando penso em não pensar, estou pensando, certo? Errado? Incerto. Mais incognoscível que o sei lá, é o não sei o que. E eu continuo na minha procura-espera. Parar de pensar…. como se isso fosse possível para minha mente obliquamente desiderativa.

“Você tem a alma hilsteriana”. Estaria mais para supliciosa. Suplicativa. Ativa. Ai Deus! Como é penoso não pensar. Chega a doer dor de virgem. (Ou de capricórnio?)

Perene.

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Poema

Não sei fazer poema, nem poesia.
A desconstrução da minha vida não desconstruiu nada, não constrói nada, nem destroi. Só supõe, quando o faz.
Será que está tudo muito errado? ou está tão certo que parece errado? Não sei bem. Bem, nem sei. Talvez fossem preciso um mar e cinco rios para eu me encontrar.
Não sei fazer cartas de amor, não sei romantizar. Não quero.
Porém as coisas insistem em parecer não terem cor, apesar de eu pintá-las. Talvez o problema seja esse… só lemos o que queremos ler, escutamos o que queremos escutar. Lemos e escutamos do mesmo modo, vivemos do mesmo jeito. Há anos e a anos…
Que cor tem a sua luz?
A minha tem cor de lilás, assim como minha cortina. E olhando para ela, continuo sem saber fazer poema.
Conversando com a cama, digo que não quero mais reclamar. Porém, até o teto sabe que não estou sendo sincera, menos eu.
Eu existo em um poema que não foi feito por mim, nem para mim, em palavras que não foram ditas, em expressões que se escolheu não serem vistas, em pessoas que eu também faço vivas dentro de mim. Eu existo fora de mim tão mais vívidamente que até me invejo.
Mas ela está cansada, muito cansada.

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Cinza-amor

Ah meu amor… Que belo! que tolo! que neurótico! Supersônico, superável, supetão. Mas tão longe de mim.
E quem me dera, ah quem me dera! Fosse só distancia de pés. Mas é de alma, de coração, de existência. Ou melhor, de existir.
Cansei de não falar de amores. Cansei de tudo… viver dá cocegas.
Problemas são feitos maiores e amores menores. Palavras comidas.
Ah meu amor! Ele espera por mim, como quem espera pelo ontem.
O que você espera de mim?

O mundo dos medíocres não é tão bonito como na TV. Pra você ver…
Não há brilho, não há purpurina, muito menos cor. Só tons de cinza. Belíssimos tons de cinza. Já provou um amor cinza? Tem gosto de cômodo. Porém não do quarto, está mais pra área de serviço.

O príncipe não chega no cavalo branco, nem preto (talvez cinza?).
O principio não principia no (quando) que se espera, mas termina na espera.

E na tentativa de sair algo furta-cor, só me sai cinza. E o gosto continua insípido.

Ah meu amor! tentei descreve-lo, mas me falta cor.

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Cofre

O que você esconde dentro dele? o que você esconde?
Quantos ditados foram ditos e casas foram casadas?
Quantos eles? quantos vocês? quantos eus?
Ai meu Deus! Se eu soubesse falar javanês… talvez alguém escutasse meus reclamos e atendesse meus pecados.
Onde está, ou melhor, onde estão? Cadê o que é meu? Cadê a fantasia que me pertence?
Então, o que fazer se já sou fruto podre da sobriedade da contemporaneidade? Onde está a sonhadora? E todo esse nada? Estou cansada dele, farta. E toda essa cólera à toa? sei lá, já aí.
Seria bom se fosse quente, se fosse sedutor, se fosse amor. Ou melhor, desejo. Porém se fosse eu me atear a tais minúcias, estaria me anunciando.
Quero semear palavras(?)

O que escondo é mais do que posso matar, mais do posso falar. Tais palavras, tais fugazes palavras, se o valor delas fossem realmente valorizadas… até mesmo por mim. E se um dia eu me peguei tentando esconde-las é porque não quis fazer. Se de fato o quisesse, não pensaria antes. Ato é sinônimo de querer.

Onde você guarda suas palavras? onde você as come, as bebe e as vomita?
Onde vou encontrar o que se esconde, se se esconde tão bem?

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